OPINIÃO

As eleições não terminam no domingo


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Neste domingo, milhões de brasileiros irão às urnas para escolher presidente, governadores, senadores e deputados. O voto encerra uma etapa importante do processo democrático, mas não encerra a responsabilidade de quem elege nem, muito menos, a de quem será eleito. A democracia não pode funcionar apenas de quatro em quatro anos, concentrada no período em que candidatos percorrem cidades, apresentam promessas e disputam a atenção do eleitor. Depois da apuração, começa uma fase igualmente importante: acompanhar, cobrar, fiscalizar e exigir resultados.

Ainda não sabemos se iremos conseguir eleger um representante da RMJ (Região Metropolitana de Jundiaí). O que eu tenho certeza é de que a campanha “A Força do Voto”, feita pelo Jornal de Jundiaí, conscientizou os leitores que é preciso sim ter um representante de sua cidade no Congresso ou na Assembleia Legislativa. 

Mas, precisamos amadurecer nossa relação com os políticos. Durante décadas, fomos acostumados a conviver com políticas moldadas ao calendário eleitoral, programas lançados às pressas, obras anunciadas sem planejamento de longo prazo e medidas que respondem ao momento político, mas nem sempre sobrevivem à troca de governo. Essa lógica enfraquece a administração pública porque transforma necessidades permanentes da população em respostas temporárias.

Educação, saúde, segurança, infraestrutura, saneamento, habitação, mobilidade, produtividade e redução das desigualdades não cabem em um mandato. São áreas que exigem continuidade, metas claras, orçamento, indicadores e avaliação. Uma política pública séria não deveria desaparecer porque mudou o governante, assim como uma iniciativa ruim não deveria ser mantida apenas para preservar uma marca política.

O próprio modelo de planejamento do Estado brasileiro reconhece essa necessidade. O Plano Plurianual, o PPA, tem duração de quatro anos e atravessa mandatos: começa no segundo ano de um governo e termina no primeiro ano do seguinte. É uma arquitetura criada justamente para que o planejamento público não seja sinônimo de calendário eleitoral. A Constituição, por sua vez, determina que a administração pública obedeça aos princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência.

É essa cultura que precisa ganhar força também fora dos gabinetes. O eleitor não entrega um cheque em branco quando aperta a tecla confirma. Entrega um mandato com prazo, atribuições e responsabilidade pública. Da mesma forma, quem perde uma eleição não deixa de ter deveres com a democracia, e quem vence não recebe autorização para tratar o Estado como propriedade de um grupo, partido ou projeto pessoal.

A partir de segunda-feira, ou depois de um eventual segundo turno, a pergunta deveria mudar. Em vez de apenas “quem ganhou?”, precisamos perguntar: quais metas serão perseguidas? Quanto custarão? De onde virão os recursos? Em quanto tempo os resultados serão medidos? O que será mantido de políticas que funcionam? O que precisa ser corrigido? Quem será responsável por cada entrega?

O país precisa trocar a cultura do anúncio pela cultura do resultado. Precisamos olhar menos para placas inaugurais e mais para indicadores; menos para promessas genéricas e mais para metas verificáveis; menos para soluções improvisadas e mais para políticas capazes de atravessar governos.

Esse compromisso não depende apenas dos eleitos. Depende de imprensa livre, órgãos de controle, instituições, entidades da sociedade civil e, sobretudo, de cidadãos que acompanhem o que acontece depois da campanha. Democracia também é uma cobrança cotidiana.

No domingo, o eleitor escolhe seus representantes. Na segunda-feira, começa outra tarefa: lembrar a cada um deles que o mandato é temporário, mas os problemas do país continuam. E que governar exige planejamento, continuidade e responsabilidade com o dinheiro público.

As urnas fecham. A cidadania, não.

Ariadne Gattolini é jornalista e escritora. Pós-graduada em ESG pela FGV-SP, administração de serviços pela FMABC e periodismo digital pela TecMonterrey, México. É editora-chefe do Grupo JJ    

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