OUTUBRO ROSA

Entre oferta e procura, sobram exames de mamografia em Jundiaí

Por Giovanna Vianna |
| Tempo de leitura: 4 min
Katia Manfio descobriu o câncer de mama em estágio inicial durante a mamografia
Katia Manfio descobriu o câncer de mama em estágio inicial durante a mamografia

Com o objetivo de detectar precocemente o câncer de mama por meio da identificação de lesões ou nódulos, a mamografia é, de longe, um dos principais exames a serem realizados pelas mulheres na fase adulta. Só em Jundiaí, segundo dados da Secretaria Municipal de Promoção da Saúde, dos 20 mil exames ofertados em 2026, 15.409, entre janeiro e setembro foram realizados. Mesmo com a diferença de 5.461 entre a oferta e a quantidade realizada, o trabalho de prevenção e chamamento continua. 

Em 2025, a rede municipal havia feito 22.477 mamografias. Os números reforçam a importância do acompanhamento regular e do diagnóstico precoce, tema do Outubro Rosa, que também dá visibilidade aos desafios enfrentados após a descoberta da doença. A porta de entrada é sempre a médica especializada. 

Dados que avançam 

O câncer de mama é o tipo mais incidente entre as mulheres brasileiras depois do câncer de pele não melanoma. Para cada ano de 2026 a 2028, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 78.610 novos casos no país. Em Jundiaí, foram registrados 62 óbitos pela doença em 2024, 56 em 2025 e 43 em 2026. Os dados dos dois últimos anos são preliminares.

Para a terapeuta integrativa Katia Manfio, de 47 anos, descobrir um câncer, mesmo em estágio inicial, foi assustador, mas ante a notícia, o passo foi seguir os protocolos. O tratamento começou com cirurgia para retirada do tumor, seguida de quimioterapia. Na reta final dessa etapa, ela se preparava para iniciar a radioterapia. “Minha reação foi: ainda bem que fiz este exame”, lembra. As sessões provocam náuseas, dores nas articulações, perda do paladar e cansaço intenso. A queda do cabelo também é um dos momentos mais difíceis, especialmente diante de comentários que minimizam a mudança. “Sei que a fala não é por mal, mas, para quem está passando por esse processo, não é uma escolha, é uma consequência.”

O diagnóstico mudou a maneira como Katia encara a vida e a relação consigo mesma. “Hoje eu enxergo a vida com muito mais leveza, menos cobrança comigo mesma. Passar por esse diagnóstico é viver um dia de cada vez. A gente corre para tudo e para todos e, quando nos deparamos com um diagnóstico de câncer, vai ser você por você quem vai sentir na pele o processo. Por isso, se eu puder dar um conselho, façam seus exames anualmente. Se priorize, mulher.” 

Já Adriana Manteca da Silva Cortina, de 56 anos, recebeu o diagnóstico em 23 de janeiro de 2026, também durante um exame de rotina. Em abril, passou pela primeira cirurgia e, em maio, precisou de uma nova intervenção para ampliação da margem. Depois, realizou 15 sessões de radioterapia e iniciou a hormonioterapia, prevista para durar cinco anos. “Fiquei sem acreditar e, ao mesmo tempo, muito triste. Saber que você está com essa doença já é um desafio. Fiquei me perguntando o que foi que não aprendi ainda para estar passando por tudo isso.” Para ela, o momento mais difícil foi enfrentar duas cirurgias seguidas. 

A experiência também mudou a forma como Adriana valoriza a vida e os momentos ao lado da família e dos amigos. “A gente começa a dar valor para cada momento simples vivido em família e com os amigos, procura aproveitar ao máximo cada momento. Eu descobri o câncer de mama num exame de rotina, então é super importante fazer os exames preventivos, pois, descobrindo no começo, a chance de cura é muito grande”, diz. 

Idade não descarta a doença

Entre 2018 e 2023, mais de 108 mil brasileiras com menos de 50 anos receberam o diagnóstico de câncer de mama, segundo levantamento do Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem (CBR), com base em dados do Painel Oncologia Brasil. Embora a maioria dos casos ocorra após os 50 anos, mulheres mais jovens também podem desenvolver a doença. 

O oncologista Jean Coutinho, do CEJAM (Centro de Estudos e Pesquisas “Dr. João Amorim”), alerta que alterações persistentes precisam ser investigadas independentemente da idade. “A idade é um fator importante para o risco, mas não funciona como uma barreira contra a doença. Quando uma alteração é nova, persiste ou foge do padrão habitual daquela mulher, ela precisa ser investigada, mesmo que a paciente seja jovem. O objetivo não é criar alarme, e sim evitar que uma hipótese seja descartada apenas pela idade”, explica. 

Para mulheres sem sintomas, o INCA recomenda o rastreamento de rotina dos 50 aos 74 anos, a cada dois anos. Desde setembro de 2025, mulheres de 40 a 49 anos e acima de 74 anos também podem ter acesso à mamografia pelo SUS, mesmo sem sintomas, mediante decisão compartilhada com um profissional de saúde. A presença de alterações, porém, exige avaliação clínica, sem que a mulher espere atingir uma faixa etária específica. 

Em Jundiaí, segundo a Secretaria de Promoção da Saúde, não há demanda reprimida para iniciar radioterapia na rede pública de Jundiaí. No Hospital São Vicente de Paulo, 80 pacientes estão em tratamento no acelerador linear. Outros 28 aguardam liberações clínicas para iniciar a radioterapia, como a conclusão da quimioterapia ou a realização de cirurgia. Durante o Outubro Rosa, a rede municipal também promove ações de conscientização, com ampliação da oferta de exames ginecológicos, rodas de conversa, práticas integrativas, caminhadas e orientações sobre prevenção e diagnóstico precoce. A campanha inclui ainda a prevenção do câncer do colo do útero e reforça a importância do acompanhamento regular da saúde.

Comentários

Comentários