Viver na era digital é celebrar conquistas diárias de inovação e conectividade, mas também reconhecer com serenidade e realismo os riscos profundos que acompanham essa evolução tecnológica.
Em incidentes de alta repercussão, ataques cibernéticos vieram à tona neste dia 15, com a operadora de eventos Ticketmaster, no 12 de outubro, com os sistemas de refrigeração na França e em 8 de outubro, com os bancos de dados do Hospital Israelita Albert Einstein no Brasil. Tais ocorrências evidenciam que a vulnerabilidade digital ultrapassou o ambiente corporativo tradicional, comprometendo desde a infraestrutura urbana até os serviços essenciais de saúde. Embora esses episódios recentes não tenham atingido plantas industriais, eles funcionam como um poderoso espelho para o setor produtivo, servindo para lembrar a indústria da imensidão e da gravidade das consequências que pode sofrer caso negligencie sua segurança digital.
Os dados estatísticos auxiliam a dimensionar a enorme escala e a capilaridade desse desafio cotidiano. Segundo levantamentos divulgados pelo FortiGuard Labs, o Brasil registrou impressionantes 753,8 bilhões de tentativas de ataques cibernéticos ao longo de 2025. Esse volume demonstra com clareza que a criminalidade digital atual é altamente profissionalizada, automatizada, persistente e opera em ritmo constante, rondando os servidores e ativos digitais de empresas em todos os setores e portes em território nacional, independentemente de sua área de atuação.
Entre os setores mais visados no cenário global, a indústria e o segmento de manufatura ocupam um lugar de destaque nas estatísticas de ameaças corporativas levantadas em 2026. Os motivos para essa mira constante são claros e objetivos: o altíssimo valor econômico da propriedade intelectual e dos segredos industriais guardados nesses ambientes, aliado ao impacto absolutamente catastrófico que uma paralisação não planejada causa em toda a cadeia de suprimentos, logística e distribuição de mercadorias.
Quando um ataque cibernético de sucesso atinge o chão de fábrica, as consequências ultrapassam rapidamente o prejuízo financeiro direto de um resgate. Linhas de produção inteiras podem ficar paralisadas por dias, cronogramas rigorosos de entrega desmoronam e a confiança construída ao longo de anos com clientes e distribuidores sofre abalos.
Um ponto nevrálgico revelado por análises recentes do mercado publicadas em fevereiro de 2026 diz respeito à fragilidade dos elos externos e da cadeia de valor. Estudos de mercado indicam de 42% a 61% das invasões de sucesso no setor industrial envolvem, de alguma forma, o acesso concedido a fornecedores, consultores e prestadores terceirizados. Um dado revelador é que 54% das companhias admitem francamente falhas operacionais ou falta de rigor na checagem prévia de segurança desses parceiros antes de conceder permissões de acesso aos sistemas corporativos internos. É como reforçar todas as portas principais de uma fortaleza, mas negligenciar totalmente a verificação de quem transita pelas entradas secundárias da operação.
Diante desse cenário desafiador, fica evidente que investir em cibersegurança deixou de ser uma tarefa isolada ou um centro de custo dos departamentos de tecnologia. O esforço tornou-se essencial para a sustentabilidade, a governança e a sobrevivência das empresas. Adotar uma cultura preventiva sólida, que inclua auditorias frequentes, segmentação rigorosa de redes, checagem criteriosa de parceiros e capacitação contínua das equipes, é o único caminho seguro para blindar o futuro dos negócios e proteger a sociedade.
*FRANCESCONI JÚNIOR é primeiro vice-presidente do Ciesp e diretor da Fiesp