Recentemente, um amigo me enviou um texto no qual falava de sua infância, das lembranças guardadas na memória e da saudade dos tempos de criança, e perguntava: “Cadê o bijuzeiro, o vendedor de quebra-queixo, o leiteiro?” Lamentava o desaparecimento de personagens que faziam parte daquele mundo simples que parecia caber num quintal ou numa tarde.
Cada um de nós poderia acrescentar uma porção de lembranças dos “bons tempos”. A internet está repleta de publicações dos anos que marcaram nossa infância. Fotografias antigas, brinquedos esquecidos, músicas e até propagandas.
Mas isso não é novo. Quando criança, eu ouvia meus avós, meus pais e meus tios contarem histórias da infância deles, sempre repletas de saudade. Falavam de um tempo que eu não conhecera, de pessoas que nunca havia visto e de lugares que talvez já nem existissem mais.
Somos feitos assim. Não por acaso, a expressão “Recordar é viver” atravessou gerações e foi cantada tantas vezes em outros carnavais.
Bartolomeu Queirós, em seu livro Vermelho Amargo, escreveu: “Fui, desde pequeno, contra matar a saudade. Saudade não se mata, é um sentimento que a gente cultiva com o regador para preservar o cheiro da terra encharcada.”
Mas é preciso saber o que estamos buscando quando desejamos lembrar o passado.
Há um conto tradicional que ilustra bem essa questão.
“Diz-se que um rei andava muito triste. Certa noite, chamou o cozinheiro real e lhe disse: - Quero comer uma torta de amora igual à que minha avó fazia. Se conseguires, amenizará minha tristeza.
O cozinheiro escolheu os melhores ingredientes e preparou o doce com esmero.
Ao prová-lo, porém, o rei manteve o semblante triste:
— Isso não se parece em nada com o sabor do doce da minha avó. Não serás mais o cozinheiro real.
Com humildade, o cozinheiro respondeu: Meu senhor, dediquei mais cuidado a este doce do que a qualquer banquete que já preparei. Mas não posso aplacar sua tristeza, pois o que desejas não é uma torta — é o retorno ao menino que um dia foste. Por melhor que fosse minha receita, ela nunca seria igual à da sua avó. Porque o senhor já não é o mesmo e eu não posso recriar o sabor da infância. Ninguém poderá fazê-lo.”
Talvez seja essa uma grande armadilha: imaginar que, se conseguirmos recuperar os objetos, os lugares e os costumes de antigamente, recuperaremos também a felicidade que associamos a eles. Podemos encontrar o brinquedo em uma loja de antiguidades, mas não conseguiremos reencontrar a criança que fomos.
Isso não diminui o valor das lembranças. Ao contrário, torna-as mais preciosas. O passado não precisa ser reconstruído para continuar vivo em nós. Está presente nas histórias que contamos e nas saudades que sentimos de pessoas que já partiram.
Fomos crianças, jovens, adultos; tivemos sonhos que se realizaram e outros que ficaram pelo caminho. Não há como voltar intacto a nenhuma dessas etapas, mesmo que o cenário permanecesse igual, nós já seríamos outros.
Por isso, é importante recordar. O passado nos constitui. Mas é igualmente necessário continuar sonhando com o futuro. São os sonhos que nos projetam adiante, que nos fazem desejar o que ainda não conhecemos e descobrir possibilidades que o passado não poderia oferecer.
A saudade pode nos visitar sem que precisemos morar nela. Podemos sentir falta do bijuzeiro, do vendedor de quebra-queixo, do leiteiro e de tantas outras figuras que desapareceram de nossas ruas. Podemos sorrir ao lembrar dos quintais, das brincadeiras e das tardes intermináveis. E, depois, abrir a porta e sair ao encontro da vida que continua acontecendo.
Francisco Carbonari é ex-secretário de Educação